terça-feira, 18 de junho de 2013

Das Solidões


Eu fui. Não fui inocente, não fui desavisada. Fui porque não conseguiria não ir, porque eu precisava participar. Me sentir parte. Nem sempre funciona.

Então, eu fui. Antes, os preparativos. A revolução será purpurinada! eu ri, sozinha, comprando glitter para o meu cartaz. Primeiro as primeiras coisas: os 20 centavos representando a luta central por um transporte público inclusivo e de qualidade, a luta pela autonomia da mulher e, claro, o sonho de um mundo mais biscate.



Tudo pronto, levei pra rua meu bloco do eu sozinho, contando que Freud, Verissimo e o Mendoncinha iam me dar cobertura. A primeira solidão, a mais óbvia, a primeira a ser antecipada: eu não conhecia ninguém. Não era um momento de encontros e abraços. Mas tudo bem, iam comigo as memórias de lutas outras e, nelas, foram encontros e risos e abraços e sonhos que permanecem.

Cheguei e lá estava a gente bronzeada mostrando seu valor. Bom, não muito bronzeada, né. Uma manifestação até meio alourada. Branquinha e bem vestida. Bandeiras. Caras pintadas de verde e amarelo. Desconforto meu. Mas o espírito era de tentar, então fui passear no meio das pessoas. A segunda solidão: o sotaque. Andei pra lá e pra cá tentando identificar um arrastado, um chiadinho, um molejo nordestino. Nada, nadinha.


Ok, vamos abrir o cartaz. Hora de manifestar o descontentamento. Com o quê¿ Mais solidão. O desfile de um monte de ideias que me tiram o sono ali, alinhadas, lado a lado. Me belisquei, mas não era um pesadelo. Eu sei que a gente, fora do país, perde um tanto da conexão com o que se passa no dia a dia. No passe o sal. Mas tenho a suspeita que a geografia não explica, completamente, as anotações que encontrei (evitei fotografar o rosto das pessoas que seguravam os cartazes, meu intuito não é apontar dedos ou julgar ninguém). Cada frase lida aumentava a sensação de isolamento, de que eu estava no lugar errado, que aquela manifestação e eu não nos tocávamos. Um monte de gente com pequenos cartazes: não é sobre 0,20 centavos. Eu, em choque.










(olha, a sucessão de preconceitos me assustou)

As duas horas que passei por lá foram meio surreal: as palavras de ordem puxadas por parte da organização do evento (palavras de ordem conectadas com o movimento que aconteceu no Brasil, como: vem, vem, vem pra rua vem, contra o aumento) encontraram pouco eco e depois de um tempo o que mais se ouvia era: o povo tá na rua, Dilma a culpa é sua. Afastada do centro da mobilização, captava fragmentos de conversa: o Brasil não vai pra frente porque quem tá no comando é só mulher e bicha; tem que tirar o PT do governo de qualquer maneira pra acabar a corrupção; o problema dessas manifestações no brasil é ficarem focando no preço das coisas, das passagens, tem que pensar grande. Tudo doendo em mim. Opa, uma entrevista pra Record. Ouvi. E o moço lá, dizendo: não é por 0,20 centavos, quem vai fazer questão disso? Não é por causa de ônibus nem nada. É uma questão maior, é um protesto contra essa gente que tá governando o país (eu peguei meu papelzinho e anotei tudo que ia ouvindo, pra não inventar chegando aqui, minha imaginação talvez não produzisse o horror assim, tão explicadinho). 

E eu, tão só. Meu cartaz, meio murcho, pendia da minha mão. Aí eu a vi. Também só. Silenciosa. Levantava seu cartaz, sem falar, sem repetir as palavras de ordem, andando no meio da solidão. Carregava uma cartolina, mas eu podia jurar que era um lampião ou uma lanterna.



Foi ela, o melhor. Ela e, claro, a batucada, que eu sou dessas. Eu sambo mesmo.



O Movimento é Sexy

1. Eu não vou me manifestar contra a corrupção.
2. Eu não sou a favor de depor a Dilma.
3. Eu não sou do movimento Basta ou Cansei ou qualquer um desse naipe.
4. Eu não acho que o gigante acordou.
5. Eu não sou contra os eventos de grande porte acontecerem no Brasil.

1. Eu não acho que a corrupção surgiu com e na gestão do PT, não penso que é um problema específico da classe política ou do Brasil. Acredito que com mecanismos de fiscalização e a sociedade civil atuante e organizada pode-se agir sobre o que interessa: a minimização das perdas e o controle dos processos.

2. Nesse assunto, sou bem conservadora: acho que governo a gente troca na urna. Nem discuto. Acho um absurdo Belo Monte, acho um absurdo rifarem as pautas e demandas do Movimento LGBT, acho um absurdo o descaso com os Direitos Humanos, acho inominável as alianças especialmente com a bancada evangélica em prol de retrocessos no que se refere aos direitos das mulheres. Mas sou a favor das cotas, das políticas afirmativas na cultura, do Bolsa Família. Então, na hora de escolher legislativo e executivo eu vou levar em conta os compromissos com as questões que julgo primordiais e ficar de olho e lutando nos espaços que encontrar.

UPDATE: esse ponto, voto com a ressalva da relatora querida Iara Paiva: "Eu acho que a possibilidade de impeachmente é parte do jogo democrático. Mas impeachment não é porque que gente não concorda com os rumos do governo - é porque ele cometeu crimes sérios."

3. Eu não cansei. Não cansei de lutar, não cansei de acreditar. Não acho que a responsabilidade por uma sociedade mais justa é um fardo ou compromisso alheio. Não me acho à parte do problema nem da solução. Não separo “eles” de “nós”, sendo “eles” uma entidade abstrata e desumanizada. Somos, todos, gente, com fraquezas, limitações, virtudes, desejos e demandas específicas. E somos, todos, responsáveis, com nosso silêncio, com nossas ações, com nossos gritos, com nossa acomodação.

4. Não acordou porque não estava dormindo. Os Movimentos Sociais estão aí, na rua, na militância, no bom combate. Estão nos blogs, nas caminhadas, nos jornais, fazendo resistência, nomeando os erros, dialogando e ocupando os espaços, agindo, de olhos bem abertos. O "gigante" é múltiplo, diverso e tem pautas diferentes de acordo com grupos e interesses específicos, incluindo diferenças de classe.

5. Sou contra a forma como o processo todo foi dirigido e está sendo encarado: um processo excludente e que marginaliza grande parte da população, com especulação imobiliária e interesses diversos (e não relacionados com os eventos e sua qualidade/eficiência) pautando as ações.

Sou a favor da gente lembrar, em altos brados, que é sobre 20 centavos. Que as pessoas foram pra rua por causa do aumento de preço de passagens de ônibus, metrô e trem. Sou a favor de não obscurecer que é sobre tarifa zero. E, claro, como disse a Fabiana Motroni: “é sobre tudo isso que o protesto contra o aumento da passagem representa: é sobre a não-politica de transporte público, é sobre o não-respeito ao direito de todo cidadão sobre o todo espaço público e urbano, é sobre as máfias da especulação imobiliária e das empresas de transportes apoiadas pelos governos."

Então eu vou fazer o que, hoje, no Largo de Camões? Eu vou lá pra me sentir integrada a um monte de gente que amo e respeito que foi pra rua ontem e tantas outras vezes nas Marchas das vadias, contra o estatuto do nascituro, contra a desapropriação em Pinheirinhos e da Aldeia Maracanã, contra Belo Monte. Vou dizer que não sou chocadeira e que o corpo das mulheres não é do Estado nem da Igreja e que o governo que não acata isso não me representa mais.


Vou lá pra temperar minha salada 
- e minha militância - com o que eu quiser.


Vou lá pelo direito de ter direitos. Pelo direito à manifestação e à ocupação pública do espaço público.Vou lá pra convergir com a Elza Soares e dizer que 0,20 centavos faz diferença. 



Vou lá porque eu amo a rua, as mobilizações, as manifestações.Vou lá porque gritar palavras de ordem, segurar cartazes, empunhar bandeiras é uma forma de ser quem eu sou. Vou lá porque acreditar é subversivo. Porque estar com outras pessoas é transformador. Especialmente porque me agrada seguir o que a Jeanne propôs no seu excelente post:

Então eu vou fazer o que, hoje, no Largo de Camões? Pensar no Chico Buarque, ora.


*****

E, só pra terminar, contar pra vocês o quanto tenho me emocionado, me preocupado, me comovido, me mobilizado com os atos no Brasil. Os grandes momentos, como a tomada da cobertura do Congresso Nacional, ou as pequenas gentilezas e articulações como a creche da FemMaterna e do LuluzinhaCamp. Todos eles fazem a diferença. Todos vocês, que neles estão, fazem, do mundo, um lugar em que eu quero estar, agora, hoje.




São muitos os nomes, muitas pessoas, mas vou deixar um beijo especial pra Babi porque foi ela que verbalizou o que eu penso: o movimento é sexy.

PS. Se alguém souber quem fez estas fotos me avisa pra eu colocar os créditos.



domingo, 16 de junho de 2013

Borboletas na Rua


Fiquei um tempão tentando escrever um post. Sobre tudo ou qualquer coisa. Mas o peito está apertado, a tristeza nubla olhos e pensar e a sensação de impotência zomba de qualquer idéia. Eu queria um jeito elegante/espirituoso/ inspirado de dizer o óbvio: governante que não escuta o povo, você está fazendo isso errado. Polícia que reprime manifestação, você está fazendo isso errado. Gente que criminaliza os movimentos sociais, você está fazendo isso errado. Lenga-lenga que pega carona nos protestos e inserem queixas contra bolsas e cotas, você está fazendo isso errado. Muito, muito errado.


Aqui, de longe, fico de coração na mão ao pensar em todxs xs queridxs que estão na rua. Coração na mão, mas batendo alto de orgulho. 


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Se Eu Fosse Marinheiro


Amar é tão solitário, vocês não acham? Aquilo tudo que a gente não sabe dizer, todos aqueles motivos que a gente não consegue elencar (ou não consegue parar de elencar, o que dá no mesmo), o olhar único e intransferível com que vemos nosso objeto amado. E a reciprocidade não muda nada. Porque não amamos em encontros, mas como uma sala de espelhos. Amo um Outro que só eu vejo, sei, sinto, que não está em nenhum outro lugar senão no lugar de objeto amado. E aquele que me ama, também assim sente, que quase me sabe, mas não, e o que ele ama ao me amar é uma eu que só existe como objeto desse amor. O tal amar é dar o que não se tem a alguém que não o deseja... e, suspeito, nem mesmo está onde supomos.



Senti a intensa solidão do amar no Porto. E, novamente, agora, aqui, ao tentar escrever sobre. Como dizer o batucar no peito? O olho encantado? Como dizer o cheiro do rio quase mar o mar quase rio? Os azulejos, os prédios abandonados, as ruas estreitas? As imensas praças, ah, as praças! Como dizer o sabor do Porto? Como posso explicar o sentir? E mesmo que alguém venha e diga, eu também, eu também, eu também amo o Porto!, eu sei, na minha incomunicável solidão, que são cidades diferentes. Que ninguém comeu as minhas cerejas ou sentiu esse desalinho do cabelo na Ribeira.


Se Lisboa é um abraço, o Porto é um sorriso. Às vezes de canto de boca, discreto, uma cidade que é promessa, que é tesouro, que demanda a aventura em seus recantos. Outras vezes sorriso triste, melancólico, daqueles que o olho não acompanha os lábios, ferrugem, abandono, desgaste. Quase sempre sorriso largo, fácil, beleza explícita, jardins, flores e leveza enfileirados. E, em alguns momentos, o Porto se permite gargalhada solta, é Ribeira e água, água, água. Meu Porto é sorriso que encanta, que envolve, que convida, que acolhe.



Meu Porto é em igrejas boas de ver, frutas vermelhas boas de provar, comida barata boa de comer, gente bonita boa de se ouvir. Fui ao dicionário e lá estava: Porto – qualquer lugar de abrigo, refúgio ou descanso. Foi assim que eu vivi os três dias, um intervalo em riso e prazer: o Porto recebeu e cuidou do que é vulnerável em mim, do que é quase. É repousante não pensar no viver, só existir.   


 “Sempre se pode voltar”, dizem. É uma esperança. Porque se o amar é, como disse Vinícius, a vontade de estar perto, se longe e mais perto, se perto, eu preciso de mais, mais francesinha no Piolho, mais teatro São João, mais arcos da Ribeira, mais beira mar, mais jardins do Palácio de Cristal, mais azulejos da estação de São Bento, mais sorrisos, mais som, mais luz brincando na água do Douro. Esse amor, como tudo que é humano, solitário, só me resta vivê-lo. 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Agridoce


Você se lembra? e é como um abraço, está-se mais perto um do outro. Você se lembra? e lá a máquina do tempo tão desejada rapidamente construída. Você se lembra? e os momentos com sabor voltam, todinhos, inteiros e intensos, temperos apurados.

Eu gosto do sabor do tempo. Quando lembro algo, lembro mais: lembro de mim naquele instante, quem eu era, o jeito, os sonhos, os planos. E se tenho pouca vontade de ser de novo a mesma e viver o que já foi, a alegria de ter sido é inversamente proporcional.
Recordo os sabores de casa ainda mais quando estou tão longe dela: em geografia e pensar, em tempo e certezas. Saudade tem gosto, sabe, quase sempre agridoce. Porque há o bom do agora: o riso, a beleza, o prazer. Mas há, também, tudo aquilo que não é e que falta que faz. Então, memória: lembro arroz de leite e costela de carneiro assada, que minha mãe desfiava tão pacientemente mas nos desafiava a comer só. Lembro o creme de manga. O souflê. Lembro os dindins. Lembro Maria Isabel, meu pai na cozinha. Ah, sextas a noite e os oriocós. Lembro em sabores, cheiros e afeto.
E fico pensando o que meu pequeno (tá, eu sei, 1,95cm não é pequeno) vai lembrar. E penso que será em massa a sua memória. A mais simples, usual e repetidamente devorada com vigor: parafuso coloridinho cozinhado sem sal, escorrido e à espera. Na panela, pedacinhos de linguiça, passa o tempo, entram os quadradinhos de bacon, mais minutinhos e tomate, sem pele nem semente, shouyu e relógio. Tic-tac, quase pronto, pasta com pedacinhos crocante, um tanto de creme de leite e bora derramar no parafuso.
Tanta coisa que a gente (ou só eu, não sei) pensa quando tem filho: bons hábitos, estudo, afeto... um monte de coisa que a gente (ou só eu, again) se preocupa em oferecer e nunca tinha pensado em que lembranças sua língua ia levar. Agora, que estou longe demais para abraços que postergam o ir deitar, longe demais das camisas espalhadas nos lugares insólitos, longe demais dos sanduíches feitos por ele pra me alimentar, longe demais dos jogos, dos resmungos, do cabelo macio, longe, longe, longe, fico mastigando a saudade: agridoce.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Dessas Que Ela É




Quando eu a conheci, ela estava mudando os sentimentos e, de lá pra cá, em tempestades e bonanças de afeto, nunca deixamos de saber mais e mais uma da outra e querer bem.

Mas é preciso ir ao começo pra vocês entenderem melhor a razão deste post. Antigamente (ahahah, tipo 2008, 2009) eu não sabia nadica do mundo virtual além da boa e velha troca de e-mails. Aí minha irmã me apresentou os blogs. E eu entrei na febre de ler, ler e ler. Nesse tempo fuçava-se muito o blogroll alheio e não sei bem como, ou eu cheguei no blog da Raquel ou ela chegou no meu. O certo é que, logo, passamos a comentar diariamente o que uma e outra escrevíamos. Da conversa na caixinha de comentários pra conversa nos mails e, rapidamente, pro bom e velho MSN.

Não diríamos que somos parecidas ou que temos exatamente os mesmos interesses. Mas gostamos uma da outra e gostamos de gostar uma da outra. E rápido veio convite: vem aqui¿ Eu fui: rimos, bebemos, andamos, conversamos. E, claro, escrevemos depois. Eu, aqui. Ela, . Depois disso foram várias viagens e vários posts-relatos, posts-presente-de-aniversário, posts-amor.

Desde o primeiro momento e até hoje meus olhos ficam encantados pelo jeito com que Raquel usa as palavras. Ela é arte. E sentimento. As palavras pulsam em seus arranjos. O que ela escreve convida, envolve, indica. É bonito, mas é mais que isso. Eu sigo, constante, as suas letras.

Pois ela e as letras estão de casa nova. Outro blog, mais boniteza. Não deixa de ir lá. Saber dessas que ela é.


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Bolhinha de Sabão ou Na Academia


Pode ser só impressão minha (provavelmente é) mas eu sinto que meu mundinho de trabalho, a tal vida acadêmica, se assemelha muito a uma bolha. Tentar conversar sobre ela faz com que eu me lembre dos papos que tenho com as pessoas que não costumam frequentar as redes sociais, tipo Facebook, twitter, nem se envolvem em #mamilos e tretas internéticas. Fica sempre uma sombra, uma área inexplorada, uma coisa quase dita, mas que a gente engasga porque sabe que não vai fazer sentido nenhum para o interlocutor. E não é que a vida internética seja um "a mais", melhor ou qualquer coisa assim. É só diferente e tem interpretações, dinâmicas e conteúdos um tanto distintos. 

O “mundo acadêmico” quase sempre me passa a impressão de uma realidade paralela. Constituído de  uma série de pequenas obrigações, rituais, pormenores, tramas, dramas, que parecem fazer todo sentido quando nele estamos inseridos, de repente se torna meio tolo quando tentamos explicar para alguém, fora da bolha, porque nos descabelamos pra publicar em uma revista qualis A, qual a relevância de citar direitinho e porque não dormimos direito, afinal é “só a qualificação da tese, né”.  

Estar fazendo doutorado parece que acentua isso. A bolha passa a ser a bolha-do-eu-sozinho. Vamos supor alguém com quem você converse todo dia à noite. "oi, tudo bem, o que você fez hoje?"... enquanto você aí, que pensa que sua vida é um tédio, que seu trabalho é repetitivo, tem uma porção de coisinhas pra contar, eu, de domingo a domingo (praticamente), respondo: "eu li e escrevi". Claro, se for um dia muito animado eu coloquei roupas na máquina, fui ao supermercado ou, até, lavei o banheiro. Porque não dá pra dizer: "ah, foi ótimo, eu estava lendo uma tese sobre trabalho, subjetividade e capitalismo manipulatório e fiquei em dúvida se me limito a tratar do capitalismo contemporâneo como capitalismo flexível ou se seria interessante discutir as terminologias manipulatório, flexível e financeiro, porque isso implica em reescrever minha problematização e como já estou com 30 páginas e é o máximo permitido - veja como eu sofro quando tenho que escrever com letras contadas"... provavelmente o interlocutor já dormiu, a não ser que seja alguém da academia, de preferência da área que vai me interromper pra pegar a referência da tese e pra dar sua opinião sobre um projeto #%&@ de 30 páginas.

Minhas dores cotidianas são: número de páginas, escrever artigos que são recusados pra publicação, escrever artigos que são aceitos com ressalvas que eu não tenho tempo de ajustar,   descobrir se estou agradando minha orientadora, disfarçar no slide que ainda não li estudos empíricos sobre indústria automobilística o bastante, ter pesadelos onde meu diploma não é revalidado no Brasil, não ter bolsa porque o projeto é demasiado transdisciplinar, preparar um power point suficientemente completo que possa ser apresentado em 15 minutos, levantar bibliografia, levantar bibliografia, levantar bibliografia. E ler isso aí tudo que foi levantado. E isso porque eu estou liberada das reuniões de departamento, eleições de Conselho Universitário, disputas de projeto de extensão e mais uma porção de coisas que costumam causar bocejos em todas as pessoas queridas que ainda tem paciência de me escutar.

Longe dos meus livros, da minha família, das idas e vindas dos amigos eu me sinto cada dia mais desinteressante. Se alguém por aí "quiser só o meu corpo" eu acho que ainda tá no lucro, não sei se estou tendo muito mais pra oferecer. Sei que quando acabar o doutorado essa sensação vai ser minimizada, não porque a situação vá, efetivamente, melhorar, mas porque eu vou voltar pra bolha-mãe, a bolha-coletiva-universidade onde o drama da quantidade de páginas e do número de pontos qualis faz sentido pra muita gente ao redor. 


*****

Reli o post e fiquei achando com cara de "ai-jisuis-como-eu-sofro-e-sou-incompreendida-tadinha-de-mim" e não é nada isso que eu sinto em relação ao meu trabalho. Eu me sinto privilegiada de trabalhar com a produção, socialização e troca de conhecimento. Sinto-me privilegiada de, dentro das 40 horas semanais, ter um tempo previsto pra estudar. Sinto que sou privilegiada pelo salário, pela estabilidade, pela quantidade de dias de férias. Sou privilegiada porque estou recebendo, neste momento, o meu salário pra estar aqui, do outro lado do oceano, estudando. A academia é um mundo de alegrias e descobertas e aprendizado e amizades e prazeres. É bom, é bom mesmo. Também não estou querendo dizer que "na prática a teoria é outra", não estou fazendo ode ao mundo acadêmico ou contra ele. É só a sensação de que, em algum lugar do caminho, as brumas que separam os mundos foram ficando mais densas (#avalonfeelings) e que eu me perco, um tanto, ao cruzar as fronteiras. Ou, apenas, sou eu que não sei mais paquerar, vai saber.

sábado, 18 de maio de 2013

Diário de Bordo: Salas de Cinema


Andei relendo os posts da primeira semana em Lisboa e que saudade que deu, não daqueles dias, mas daquela escrita despretensiosa, descritiva, ingênua. Que saudade de poder ser boba. Que vontade de ter os olhos límpidos, os dias longos, o corpo alerta.

Senti que, daqui a um tempo, quando olhar pros dias que vivi, estas tolas letrinhas serão morno abraço, consolo, companhia. E fiquei com pena de todas as coisas que achei demasiado miúdas, que considerei irrelevantes, todas as coisas que, por falta de tempo, de gosto ou de jeito, não deixei aqui. Fiquei com saudade do que já esqueci.

Eu não registrei que aqui tem leite com nescau na garrafinha e que eu adoro. Eu não escrevi que a senhorinha que me vende peixes no mercado diz assim: “mas a minina vai almoçar o quê hoje?” pra me perguntar o que eu quero comprar. Eu não contei que o guarda-roupa da casa é tão pequeno que eu alterno assim: quando estava no outono/inverno, os vestidinhos e camisetas ficavam na mala, agora que é primavera, inverti, os casacos e blusas mais quentes estão guardadinhos...e mesmo assim as coisas se espalham penduradas nas cadeiras, na testeira da cama. Eu não falei que pra pagar a renda eu tenho que subir os maiores lances de escada que já vi nem disse que descobri que bem pertinho de mim tem "o melhor bolo de chocolate do mundo".

Então, pra não perder o bonde, ou melhor, o eléctrico, vou falar do cinema. Já fui a salas no Centro Comercial Amoreiras (aqui quase ninguém que eu conheço chama shopping), no El Corte Inglês e no Centro Comercial Colombo. O cinema do Centro Comercial Colombo e das Amoreiras compartilham o mesmo probleminha: intervalo. Gente, intervalo em E o Vento Levou, vá lá, mas em um filme de 120 minutos? Completamente inadequado. E eles nem se preocupam com o momento da parada, é divisão aritmética simples. O cinema do Colombo tem um problema a mais: não sei de onde eles tiraram a ideia que vender o ingresso no mesmo balcão em que vende a pipoca era legal. Provavelmente dos lucros, eu sei. Mas é chato. Chato. Chato. Uma venda de bilhete que deveria demorar menos de um, vá lá, dois minutos se esteeeende na indecisão das pessoas sobre o tamanho do refrigerante e a demora pra entregarem a pipoca. E quando uma porção dos filmes em cartaz são os “badalados” vocês já imaginam o tamanho das filas – ainda mais se eu acrescer que esse é o shopping “popular”, né. E o cinema Colombo é quente. Por outro lado, as poltronas são todas ótimas e o som é bem bom. As salas do El Corte Inglês ganham pelo conjunto da obra, além de não terem esse lance de mesmo balcão nem intervalos durante os filmes, a climatização é jóia e estão passando filmes antigões restaurados. Vi Lawrence da Arábia, Psicose e vou ver A Um Passo da Eternidade. Filmes que nunca sonhei ver na telona. É giro. 

Depois do cineminha, dei uma volta no quintal só pra ver o estrago que a indecisão climática tá fazendo nas plantinhas. As flores ficam na maior dúvida, tá na hora ou não? E as roseiras sofrem com as ventanias, tadinhas... Eu vejo as pétalas no chão e me dá logo vontade de cantar: o cravo brigou com a rosa e tal.










É mais ou menos fácil saber quando se chegou a um lugar. Eu sei que cheguei à cidade de Lisboa no dia 15 de setembro de 2012, tá carimbado no passaporte, tá impresso na passagem, tá registrado no blog. Pois bem, cheguei, quero ficar bem a vontade, estilo Tim Maia. Mas como sabemos que uma cidade chegou a nós? Onde está o carimbo, a impressão, o registro? O cheirinho da minha Lisboa vocês podem acompanhar agora num tumblr: Cheira a Lisboa. 

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Um Aniversário em Amarelo


Hoje é aniversário da minha amiga Renata Lins. Pensei um bocado no tipo de post que eu queria ter aqui hoje. Podia ser uma lista das razões pelas quais eu lhe quero tanto bem. Gosto de fazer listas, todos sabem. Podia ser uma descrição de como nos aproximamos. Também gosto de histórias. Podia ser uma descrição de nossas afinidades óbvias e das diferenças que aproximam, uma coisa meio Mary&Max. Gosto de cinema. Todas estas idéias passavam pelo óbvio: quando Paulo fala de Pedro fala mais de Paulo que... todos sabem o que vem. Seriam as minhas razões, a minha narrativa, a minha seleção de afinidades. Como sempre, um post sobre mim. Então, pensei, porque não pular os intermediários e os disfarces e partir logo pro cerne da questão?

Eu tenho meus tijolos amarelos, coisinhas que fui colecionando ao longo do andar e que vão fazendo parte do que vez em quando ouso chamar felicidade, mas que atende quase sempre por vida, mesmo. É na relação com os tijolos que encontro o que se procura em Oz: coragem, inteligência, afeto e, em dias de tempestade, voltar pra mim mesma e me chamar de casa. 

Com o tempo, já não sei dizer se gosto mais da estrada, do andar em si, da companhia ou do belo cenário, mas sei, com certeza, que os tijolos fazem a diferença. São os tijolos ou, mais precisamente, o que eles representam: a possibilidade de sentir, de pensar, de tentar e de reconhecer que trago como uma espécie de votos de feliz aniversário.São alguns deles, óbvios ou meio esquisitos, que trago como lembrancinhas hoje (e há termos que servem tão bem! não sei se são meus tijolos favoritos ou mais constantes, mas são os que lembrei assim, no te amar agora), esperando, amiga, amada, Renata, que eles possam chegar aí com a magia com que habitam aqui. São doze, poderiam ser dois, sete, trinta e oito ou outro número aleatório qualquer ao qual eu me esforçaria pra dar sentido. Mas são doze, pelo óbvio motivo de que é um ano a mais (e a menos, hohoh) na sua vida. Espero estar por aqui daqui a doze (ou um múltiplo de) tijolos...

1. Coragem, teu nome é Wayne



2. Porque é necessário um humor preciso



3. Porque há certas belezas que me atropelam: Rothko Chapel


4. Do cérebro de um espantalho: Um Bergman inusitadamente divertido


5. Quando é preciso alento


6. Pra lembrar que o que bate no peito é o coração


7. Pra que haja esperança


8. Porque vai conosco


9. Porque ficamos


10. Porque navegamos



11. Porque é simples


12. Pode vir. Eu vou.



É isso, usamos os tijolos ora como estrada, ora como paredes da casinha ... 

e, você sabe, a casa é sua.


quarta-feira, 15 de maio de 2013

Diário de Bordo, pra quê?


Não tenho andando muito pelo twitter, mas passando lá essa semana vi uma espécie de zoação com “pessoas que, em pleno 2013, vão para outros países e se põem a escrever sobre eles e as diferenças como se fossem empolgados antropólogos recém-formados”. Como as pessoas envolvidas no papo certamente não me lêem, não eram de mim que falavam, embora a carapuça coubesse direitinho. Claro que, no primeiro momento, me chateei #mimimi-não-sou-mais-sua-amiga-sua-feia-chata-e-boba (isso em silêncio, com meus botões, porque não sou mesmo amiga).

Depois fiquei refletindo, desse meu jeito ruminante - mastigo, engulo, volta pra boca, mastigo mais, engulo de novo e assim vai como vocês aprenderam nas aulas de biologia (eu sei, não é um processo bonito) - e nessas idas e vindas pensei: é, né, com youtube, google, zilhões de gente que vão e vem de Lisboa faz tempo, com aquele lance de ver as ruas online, jornal, revista, tanta informação, porque mesmo que eu ainda estou escrevendo sobre os nomes diferentes que os cortes de carne recebem no Brasil e em Portugal?

O mais antigo mapa de Portugal

 E continuei ruminando. Aí lembrei um dos motivos que me faz gostar muito de psicanálise. Na psicanálise é assim: cada um tem que dizer. E nem estou falando do analisando, embora ele também. Estou falando do analista. Ser analista não depende de um diploma. Não depende de um curso. Não depende de uma formação (embora todas essas coisas possam contribuir). Para ser analista é preciso alguém que o reconheça como tal e se coloque como analisando e é preciso dar provas – e pôr-se a prova - para os pares, ou seja, escrever, relatar, reescrever a teoria pela sua clínica. Todo e cada analista precisa e deve “reinventar” a psicanálise. Assim, cada um de nós diz sobre, por exemplo, histeria. E mesmo dizendo o mesmo, é único o dito, porque cada um escolhe, organiza, projeta palavras de uma forma particular. E é assim que se constrói conhecimento, para a psicanálise em geral e para cada um envolvido no processo. É pela reinvenção, pela construção de um discurso sobre a prática, que um analista se valida e ao seu fazer.

Continuando a ruminação, na vibe psicanalista/viajante, fiquei pensando nos blogs “de viagem” que eu gosto de ler. Interessa-me bem menos o que há em algum lugar e bem mais a relação que as pessoas estabelecem com o que há no lugar. O que me interessa é o processo. A beleza é ver com o olho do outro. O que encontramos (ou o que eu encontro, pelo menos) é menos uma aproximação com os lugares e mais uma aproximação, um envolvimento, uma cumplicidade com quem lá está e de lá (nos) fala. Por isso é que, por mais interessantes que sejam os lugares que alguém visita ou mora, só continuo lendo os textos se esse alguém me cativar. Assim, imagino que quem costuma ler o Borboletas não o faz esperando alguma revelação absolutamente inédita sobre Lisboa, mas que se interessa pelo meu sem jeito com as situações em geral e especialmente no lugar novo, tão íntimo e tão distante.

Quem costuma ler o Borboletas também sabe que eu amo o Verissimo.  Sou devota. E é por gostar dele que gosto do seu livro sobre lugares, viagens e comida e é por gostar do seu livro sobre comida, viagens e lugares que gosto dele (livro, aliás, que você pode ler aqui...de nada!). E, assim, "garradinha" com meu Verissimo, é que deslindo o tema que foi #mamilos cá dentro de mim e decido continuar contando todos os meus: "oh, não tem ralo!" como eu puder. Se isso faz de mim uma antopóloga fake vintage, paciência.